DF130 era um homem como todos, apenas com algumas diferenças em seu cotidiano: não tinha nome, apenas um código como aqueles de série para aparelhos. O outro detalhe era um tanto perturbador, como o outro citado, também sem explicação, era invisível. Não com a invisibilidade que todos os seres viventes da terra gostariam de ter, como um poder para fazer as coisas sem ser visto, era invisível e intangível, como um espírito, não consegue tocar em nada, não consegue comer, aliás, não sente fome.
Embora o termo espírito seja algo que melhor especificaria este ser, seria muito surreal acreditar que almas vagam por aí sem rumo, e outra confirmação que negativaria esta afirmação é que DF130 não viu ninguém como ele por aí, talvez pelo fato de serem invisíveis também, mas isso é assunto para outra conversa.
Teoricamente, ser invisível tem inúmeras vantagens para uma pessoa, mas traz consigo uma série de problemas, que possivelmente apenas iremos descobrir no futuro, quando a necessidade de se esconder voltar contra você e transformar em uma extrema vontade de aparecer. O que agrava as desvantagens é literalmente a total falta de contato com o mundo, a audição, olfato e visão funcionam de maneira maravilhosa, aguçados e apurados, mas o tato e paladar não existem, nunca mais, já que não existe corpo e massa.
Como todos os personagens, o nosso também tem seu segredo, que todos que o acompanham na leitura sabem, menos ele, que era uma pessoa comum como todos nós, simples e aparentemente simpático. Sabemos que as pessoas vivem de aparência, o importante é o que vão pensar de você, o que você realmente é ou sente é outra história, na verdade uma batalha nos campos de seus pensamentos. Assim também era com DF130, sua fisionomia de bom samaritano era o disfarce para um humano complexo, com mais perguntas do que respostas, indecisões, medo, sofrimento e uma grande vontade de desaparecer, sumir, não importa como ou para onde, apenas desejava todos os dias que acordava, e todos os dias antes de dormir: quero sumir desta vida.
Logicamente nossas mentes voam alto, muitas vezes sem direção ou com algumas turbulências, nada grave, contanto que nosso avião mental não caia. E foi o que aconteceu com nosso protagonista, tanto desejo o tornou o que é hoje, alguns efeitos colaterais como a perda da memória de uma boa parte de sua monótona vida. Como queria, despertou um dia apenas em sua forma inexistente, sem compromissos, sem decisões ou paradigmas, tudo tão simples que acabou ficando chato.
Por que raios viver sem poder atuar em nada, o grande teatro da vida real se foi, dando lugar a poltrona de expectador, assistindo o filme da vida das pessoas, observando e tendo conclusões. Começou a pensar por que certas pessoas agiam de certa forma, por que tantos crimes ocorriam sem o menor sentido do qual fomos criados e educados, já fora perdida a conta dos atos assistidos, que trazem raiva, desespero e abalam por dias de tão grosseiros e violentos. Além disso, presenciou cenas como adultérios, pessoas passando por cima das outras, e outras peripécias do ser humano, o pior de tudo é não poder fazer nada.
Claro que os comerciais entre as partes do filme eram confortantes, ver o amor de uma mãe com seu filho, os animais desfrutando dos benefícios que a natureza fornece, o dia-a-dia de uma pessoa trabalhadora que luta pelo seu futuro e sobe na grande escada da vida são realmente muito satisfatórias de se observar.
Assim nosso querido DF130 seguia em frente, observando a vida dos outros e ampliando seus conhecimentos sobre esta raça tão estranha e surpreendente, posso dizer que foram meses ou até anos de puro vazio corpóreo, sem recordações de tudo o que já foi ou o que fez. Até que certo dia indagou em sua solidão caótica sobre o sentido da vida:
“Realmente não há nenhum sentido nela, mas se ela fosse encarada de um modo diferente, como se fosse um presente que deve ser aproveitado e usado diariamente, poderia até ser melhor e mais interessante. Friamente analizando, se não criarmos um sentido pessoal para a mesma, poderemos ficar vazios assim como eu sou.
Não existe fórmula, mas tenho alguns exemplos que aprendi, como criar uma concepção própria sobre tudo, traçar metas e objetivos a serem alcançados (tanto materiais quanto pessoais) ou se apegar a algum Deus qualquer, e olhe que este é apenas algumas linhas de um livro extenso.
Acho que se eu tivesse esta vida que eles tem, com um corpo para usar, agiria de uma maneira diferente, quem sabe um dia todos possam ficar um tempo como eu sou, para poder observar e aprender”
Segundos depois, DF130 abriu os olhos, estava em sua cama, estava um pouco estranho, sentindo seu corpo pesado. Quando percebeu que realmente estava com um corpo, levantou bruscamente e correu para o espelho, quando teve um choque, havia uma pessoa ali, não posso dizer que era uma pessoa de boa aparência, mas de fato era algo, alguém, um corpo, o que resultou em um grito de felicidade. Em questão de segundos, sua memória foi se reestabelecendo, como se um download de sua vida estivesse sendo feito, e uma voz gritou do outro lado da porta de seu quarto.
- Filho! O café da manhã está na mesa.