11/09/11

Migrando o blog

Leitores, venho informar que estou deixando o blogger e migrando para o servidor do portal Kabra, acessem lá, troquem seus feeds e nada irá mudar, os contos continuarão sendo publicados e já tem conto novo te esperando! Abraços

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31/07/11

O vale do desconhecido


Aperte o play antes de ler!!

E foi assim:

Caminhando pelo vale do desconhecido, aonde poucas pessoas se aventuram, talvez pelo medo do inevitável e do imprevisível, avanço pela região  e observo a minha volta. Seria estranho saber que pessoas temem este lugar, tão belo e verde, com flores exalando seus cheiros suaves e relaxantes, que são espalhados pela suave brisa entre as rochas montanhosas.

O sorriso veio em minha face de forma espontânea, ao ver uma família de patos nadando no rio, todos tão juntos e unidos, levados pela correnteza em uma sincronia que apenas a natureza era capaz de mostrar. Existem tantas coisas mínimas, que estão na nossa frente, e não somos capazes de enxergar ou até mesmo sentir, procuramos por todos os lados, todas as pessoas, mas esquecemos de olhar alí, aonde ninguém sequer pensou em fazer.

Em minha mente, sinto o tocar de uma canção que me faz lembrar você, cada música tem sua forma especial de lembrança ou sentimento. Continuo a caminhar pelo vale do desconhecido, por mais estranho que pareça, o desconhecido não me incomoda, não sinto medo do que talvez possa enfrentar, se de fato estou aqui por vontade própria, por que temer?

A vejo, mais bela do que qualquer uma que vi neste ou em qualquer outro mundo, um olhar penetrante e sincero, suas expressões doces e cativantes, seu corpo esculpido por algum deus da perfeição. Ela me olha fixamente, não deve existir pessoa que não se constrange com tal olhar, mas mesmo assim, continuo andando em sua direção, na beira do rio, vou desviando entre as pedras.

Minha música imaginária apenas aumenta, acrescentando toda beleza sonora e visual que o momento precisava, enfim, estava ao seu lado, confesso que de perto ela era absurdamente surreal, será que estou presenciando o sonho mais real de todos que já tive, ou estaria vivendo a realidade mais irreal de todas? Só havia um modo de saber, continuar, deixar acontecer.

Estávamos na ponta de uma cachoeira, em cima de algumas pedras, ela continuava a olhar para mim, e sorrindo, não queria saber como meu rosto se expressava, provavelmente nada sério ou cotidiano, mas não importa, o que acontecerá agora é o que importa.

- Pronto? - Disse a bela mulher, olhando para o fundo da cachoeira, notei que o lugar do qual estava com ela era de fato muito alto, metros e metros de distância, e o que será que o final nos oferece: Acordaria deste sonho para voltar a minha vida invivida, ou me afogaria na certeza de ter alguém com quem pular, e mergulhar no mais profundo comigo?

O céu estava com um tom amarelado, bem fraco, mas que tornava as cores especiais, olhei no alto, sem sol nem lua, apenas o céu limpo sendo rasgado por belas aves que voavam em conjunto. Não havia muito o que refletir, sendo que quaisquer das opções ou resultados seriam satisfatórios para mim. Segurei a mão da bela moça, ela apertou com força, e pulamos.

21/07/11

O homem invisível

DF130 era um homem como todos, apenas com algumas diferenças em seu cotidiano: não tinha nome, apenas um código como aqueles de série para aparelhos. O outro detalhe era um tanto perturbador, como o outro citado, também sem explicação, era invisível. Não com a invisibilidade que todos os seres viventes da terra gostariam de ter, como um poder para fazer as coisas sem ser visto, era invisível e intangível, como um espírito, não consegue tocar em nada, não consegue comer, aliás, não sente fome.

Embora o termo espírito seja algo que melhor especificaria este ser, seria muito surreal acreditar que almas vagam por aí sem rumo, e outra confirmação que negativaria esta afirmação é que DF130 não viu ninguém como ele por aí, talvez pelo fato de serem invisíveis também, mas isso é assunto para outra conversa.

Teoricamente, ser invisível tem inúmeras vantagens para uma pessoa, mas traz consigo uma série de problemas, que possivelmente apenas iremos descobrir no futuro, quando a necessidade de se esconder voltar contra você e transformar em uma extrema vontade de aparecer. O que agrava as desvantagens é literalmente a total falta de contato com o mundo, a audição, olfato e visão funcionam de maneira maravilhosa, aguçados e apurados, mas o tato e paladar não existem, nunca mais, já que não existe corpo e massa.O homem invisível - Entre Pedaços Como todos os personagens, o nosso também tem seu segredo, que todos que o acompanham na leitura sabem, menos ele, que era uma pessoa comum como todos nós, simples e aparentemente simpático. Sabemos que as pessoas vivem de aparência, o importante é o que vão pensar de você, o que você realmente é ou sente é outra história, na verdade uma batalha nos campos de seus pensamentos. Assim também era com DF130, sua fisionomia de bom samaritano era o disfarce para um humano complexo, com mais perguntas do que respostas, indecisões, medo, sofrimento e uma grande vontade de desaparecer, sumir, não importa como ou para onde, apenas desejava todos os dias que acordava, e todos os dias antes de dormir: quero sumir desta vida.

Logicamente nossas mentes voam alto, muitas vezes sem direção ou com algumas turbulências, nada grave, contanto que nosso avião mental não caia. E foi o que aconteceu com nosso protagonista, tanto desejo o tornou o que é hoje, alguns efeitos colaterais como a perda da memória de uma boa parte de sua monótona vida. Como queria, despertou um dia apenas em sua forma inexistente, sem compromissos, sem decisões ou paradigmas, tudo tão simples que acabou ficando chato.

Por que raios viver sem poder atuar em nada, o grande teatro da vida real se foi, dando lugar a poltrona de expectador, assistindo o filme da vida das pessoas, observando e tendo conclusões. Começou a pensar por que certas pessoas agiam de certa forma, por que tantos crimes ocorriam sem o menor sentido do qual fomos criados e educados, já fora perdida a conta dos atos assistidos, que trazem raiva, desespero e abalam por dias de tão grosseiros e violentos. Além disso, presenciou cenas como adultérios, pessoas passando por cima das outras, e outras peripécias do ser humano, o pior de tudo é não poder fazer nada.

Claro que os comerciais entre as partes do filme eram confortantes, ver o amor de uma mãe com seu filho, os animais desfrutando dos benefícios que a natureza fornece, o dia-a-dia de uma pessoa trabalhadora que luta pelo seu futuro e sobe na grande escada da vida são realmente muito satisfatórias de se observar.

Assim nosso querido DF130 seguia em frente, observando a vida dos outros e ampliando seus conhecimentos sobre esta raça tão estranha e surpreendente, posso dizer que foram meses ou até anos de puro vazio corpóreo, sem recordações de tudo o que já foi ou o que fez. Até que certo dia indagou em sua solidão caótica sobre o sentido da vida:

“Realmente não há nenhum sentido nela, mas se ela fosse encarada de um modo diferente, como se fosse um presente que deve ser aproveitado e usado diariamente, poderia até ser melhor e mais interessante. Friamente analizando, se não criarmos um sentido pessoal para a mesma, poderemos ficar vazios assim como eu sou.

Não existe fórmula, mas tenho alguns exemplos que aprendi, como criar uma concepção própria sobre tudo, traçar metas e objetivos a serem alcançados (tanto materiais quanto pessoais) ou se apegar a algum Deus qualquer, e olhe que este é apenas algumas linhas de um livro extenso.

Acho que se eu tivesse esta vida que eles tem, com um corpo para usar, agiria de uma maneira diferente, quem sabe um dia todos possam ficar um tempo como eu sou, para poder observar e aprender”

Segundos depois, DF130 abriu os olhos, estava em sua cama, estava um pouco estranho, sentindo seu corpo pesado. Quando percebeu que realmente estava com um corpo, levantou bruscamente e correu para o espelho, quando teve um choque, havia uma pessoa ali, não posso dizer que era uma pessoa de boa aparência, mas de fato era algo, alguém, um corpo, o que resultou em um grito de felicidade. Em questão de segundos, sua memória foi se reestabelecendo, como se um download de sua vida estivesse sendo feito, e uma voz gritou do outro lado da porta de seu quarto.

- Filho! O café da manhã está na mesa.

12/07/11

Lacuna canina

Estou sujo e molhado, quase a uma semana sem comer algo que me sustente, vago pelas ruas e reviro os lixos a procura de algo, meu olfato já não é mais o mesmo, de tanto revirar os lixos com meu focinho e encontrar cheiros e odores desagradáveis.

Quando novo, assim que nasci, fui deixado com meus irmãos dentro de uma caixa, em um lugar qualquer, isolado e perdido. Alguns morreram nesta jornada pela vida, devido ao frio ou fome, e outros foram resgatatos, por sorte ou azar, já que nunca podemos esperar nada dos seres humanos, talvez seja um lar feliz, talvez seja um lugar sombrio, pequeno e longe das afeições de todos. Mas eu acredito que a semente da dúvida seja algo melhor do que a vida miserável que levo, explicarei.

Lacuna Canina - blog Entre Pedaços

Durante o dia (e noite, dependendo de minha necessidade crítica), saio a procura de algo para comer, primeiramente para em alguns locais com comercio alimentício aberto, e fico pedindo para algumas mesas, a pior parte é que não consigo me comunicar, percebi com o tempo e experiência que falar pode trazer muita confusão, então apenas sento, e espero, tento desviar meu olhar da comida, mas é quase impossível, pois o cheiro é forte e tenho muitos desejos, como abocanhar um pedaço e sair correndo, o que minha vida (e dores por todo o corpo, durante semanas) também ensinou a não fazer. Eu paro, espero, em raras ocasiões tenho sorte, mas digo que vale a pena, saborear alguma coisa que não saia do lixo é algo fenomenal, e deve ser aproveitado. O que não pode ser desperdiçado são os alimentos que estão nos lixos, nas calçadas ou em algum lugar de fácil alcance, a lei de quem acha primeiro ganha, já presenciei brigas feias de dois ou três disputando o mesmo lixo.

Os dias de chuva são sempre os piores, sou grato por termos alta resistência contra doenças, pois passamos dias molhados e sujos, o mau cheiro é mais uma complicação na hora de pedir comida, ninguém quer ficar perto de um cachorro fétido. Épocas de frio são tormentas geladas que levam muitos colegas embora, se morrer é algo que temos medo, devemos ter mais medo ainda de morrer de frio, fome, ou pela violência gratuita de algum humano, procurando uma forma de diversão psicomaníaca.

Dois anos nesta vida, espero poder viver mais do que isso, ou do que vejo por aí, alguns antigos conhecidos foram atropelados, envenenados ou levados, como já disse, neste mundo estamos sujeitos a tudo, assim que fomos criados, e assim que nos mantemos a salvo.